sexta-feira, dezembro 01, 2006

APELO DA ALMA



A minha triste boca dolorida
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono esquecida
Pelo assombro desta quimera

O meu rosto de monja, de marfim
E as lágrimas que choro, branca e calma
Ninguém as vê cair dentro de mim
Ninguêm as vê brotar na minha alma

Procuro-te em vão, de braços abertos
O som dos teus passos, sei conhecer
Aguardo com sentimentos despertos
Mas sabe-se amor, que não pode ser!

A minha boca morta, grita ainda
Quando chegarás para te ver
Sentirei a tua boca, linda!
E o nosso amor renascer...

FF

sexta-feira, novembro 24, 2006

VENTO NORTE



O vento levará os mil cansaços
Através do mistério que embala
E há-de voltar aos nossos membros lassos
E em nós germinará a sua fala

Nesse êxtase pagão que vence a sorte
Num frémito vibrante de ansiedade
A nuvem que arrastou o vento norte
É a sombra entre a mentira e a verdade

O meu corpo em leves arabescos
Felinamente, em voluptuosas danças
Vai-te envolvendo em círculos dantescos
Cravados no teu peito como lanças

E gera heróis e poetas
Num mundo de maldades e pecados
O meu desejo e a minha ânsia secreta
Que sejamos eternamente abençoados

FF

sexta-feira, novembro 17, 2006

VIRTUDE



Sinto que novamente embargo
Para um mundo de aventuras
Começa um novo marco
Com palavras obscuras

Desligada dos círculos funestos
De expectativa, e mentiras alheias
Sinto o peso dos meus gestos
Nas minhas mãos, que estão cheias

Porque os outros usam a virtude
Onde germina, calada a podridão
Com uma aparente atitude
Para comprar o que não tem perdão

Um dia gastos voltaremos
De gestos agitados, irreais
A lamentar o que sofremos
A viver livres, como animais

FF

quarta-feira, novembro 15, 2006

MORRER DE AMOR




Amar-te a vida inteira eu não podia
Uma saudade morta em nós renasce
A gente esquece sempre, o bem de um dia
A mais nobre ilusão morre...desfaz-se

O nosso sonho foi alto e forte
Deve-nos ser sagrado como pão
Que pensei vê-lo até à morte
A encher-me de luz o coração

Toldam-se-me os olhos, de onde corre a vida
Neste corpo exausto que despi
Noite de amor que me foi prometida
No mais secreto que existe em ti

Sonho que eu e tu, dois pobrezinhos
Num país de ilusão que nunca vi
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
E eu morro amor, dentro de ti!


FF

segunda-feira, novembro 13, 2006

LONGE DE TI


Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti há noites silenciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinhos
Perdidas pelas noites invernosas

Tanto clarão nas trevas reflugiu
Pedi à vida mais do que ela dava
Meu castelo de luz que me caiu
Eterna sonhadora edificava

Passei a vida a amar e a esquecer
As brumas dos atalhos por onde ando
Á procura de um raio de sol para me aquecer
Que há-de partir também, nem sei quando

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio
E este amor que assim me vai fugindo
A mesma angústia funda, e sem remédio
Mas a fé igual, em outro amor que vai surgindo...

FF

sexta-feira, novembro 10, 2006

CORPOS PENSANTES



No mais secreto do que existe em ti
A grande solidão que de ti espero
Tua falsa beleza, que não vi
A voz com que te chamo, é de desespero

Não fui eu que te quis, e não são meus
Os lábios sedentos que poisaram
Possessa desta raiva que me deu
Jamais os meus dedos te tocaram

Nossos corpos pensantes se entrelaçam
Nossos sexos furiosos se confundem
Nossas almas sedentas se trespassam
Nossos prazeres únicos se fundem

Pensando, nos secamos e perdemos
Uma causa maior que nos explique
Esta ansia de desejo que trazemos
Que nos satisfaça ou justifique

FF

quarta-feira, novembro 08, 2006

O REFLEXO



Porquê esperar porquê, se não se alcança
O gesto que estrangula, a voz que grita
Antes aproveitar a nossa herança
Do monstro que inventámos e que nos fita

Esta semente agreste que trazemos
Dentro do peito a emoção
Um punhado de cinza esparso ao vento
E na alma o bater do coração

Este frio que anda em mim, e me gelou
Que é fortuna infinita é demência
Se eu nem sei onde ando e onde vou
Sinto os passos da dor, da decadência

Sou um verme que um dia quis ser astro
Sou um refelxo...un canto de paisagem
Uma estátua truncada de alabastro
Sei lá quem sou!... Uma miragem

FF

quinta-feira, novembro 02, 2006

ALMA FRÁGIL



Quero viver um momento
Da noite ao mal frescor
E entre os suspiros do vento
Morrer contigo de amor

Quero tremer e sentir
Quero viver de esperança
Quero sonhar e dormir
Quero apagar a lembrança

Se me ponho a cismar em outras eras
Parece-me que foi numa outra vida
Que dantes tinha o rir das primaveras
Em que ri e cantei, em que era querida

Minha alma é frágil como o sonho de um momento
Soturna como preces de agonia
Como soluços trágicos do vento
É magoada, é pálida e sombria...

FF

terça-feira, outubro 31, 2006

ESPÍRITO SERENO



Tu, que dormes, espírito sereno
Como um levita á sombra dos altares
Acorda! É tempo! O sol já vai alto e pleno
Posto à sombra dos credos seculares

Escuto em sonhos, quando a sombra desce
Da noite nas fantásticas estradas
Esse novo corcel, cujas passadas
E, passando a galope, me aparece

Um cavaleiro de expressão potente
E o corcel negro diz: " eu sou a morte"
Cavalga a fera estranha sem temor
Formidável, mas plácido, no porte

Numa espiral, de estranhas contorções,
Como um bando levado pelos ventos
No meu sonho desfilam as visões
Espectros dos meus próprios pensamentos.

FF

segunda-feira, outubro 30, 2006

SENTIMENTOS DISPERSOS



Nem um poema, nem um verso nem um canto
Nada a não ser este silêncio tenso
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Que faz do amor sozinho...o amor imenso!

A grande solidão que de ti espero
Que hoje te aspiro, embalo, gemo e canto
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora
Antes sofrer a raiva e o sarcasmo
Do que desistir e ir embora...

Sonhar um verso de alto pensamento
São assim... ocos, rudes os meus versos
É frágil, como o sonho de um momento
Palavras vãs e sentimentos dispersos

FF